quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

há vinte anos

Se usava tirar erre-gê novo pra fazer vestibular: achei o danado, direto do meu terceiro ano, lá de 1994 - não façam contas. É uma foto trêsporquatro razoável, de farda do colégio, o brincão hippie na orelha. Posso apostar nas pulseiras e nas sandálias de couro. Na pele o sol de todos os sábados: depois da prova, da escola ia direto pra jaguaribe e só voltava pra casa no último raio de sol.

Vinte anos depois, só tenho que agradecer: pela minha família, trapo como todas, mas minha. Pelos meus amigos maravilhosos e generosos. Pelo meu caminhar profissional riquíssimo, meus colegas, chefes, orientadores, tutores, mentores e inspiradores. Pela minha indignação que me levou azindiacomunista, ao ativismo. Pelo companheiro que eu encontrei no ano seguinte, que se/me transforma. Pelas crias valiosas que fizemos juntos.

2014 foi um ano ma-ra-vi-lho-so: rico em desafios, obstáculos, aprendizados, oportunidades, contatos, inspirações. foram muitas mudanças: sou outra mas continuo a mesma que pousa neste erre-gê!

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

um relato quase selvagem

Eu me considerava uma boa motorista. Daquelas que sabe acelerar, passar por pequenos espaços e frear com exatidão. Eu achava uma boa vantagem nesta nossa cadeia alimentar saber aproveitar os espaços vazios no trânsito e ir galgando posições à frente dos "concorrentes". Não tinha medo de abaixar o vidro para chamar alguém de barbeiro, ou gesticular ofensivamente para o retrovisor

Era daquela que protestava contra a lentidão da fila do banco e maldizia o treinamento dado aos funcionários pelas grandes corporações. "E pensar que antes quem queria derrubar o sistema e agora se desespera quando o sistema está fora" era minha frase mantra, para ser usada quando o sistema caia bem na hora que eu chegava no guichê.

Nos atendimentos telefônicos não resistia ao sarcasmo e à ironia com os pobres atendentes, especialmente se eu quisesse fazer algo com o quê a corporação não concordasse, tal qual cancelar um serviço (tá bom, confesso, ainda tenho dificuldade em resistir a isso, mas, também, né? quem consegue?).

Vivia minha vida estressadamente até a hora em que engravidei.

Para ter Alice, tomei diversas medidas para evitar que a nave em que eu tinha me transformado fosse contaminada, para transformar meu corpo num envólucro adequado ao desenvolvimento de um novo ser: parei de beber, logicamente. Melhorei muito a alimentação (não o suficiente, mas fiz o que meu nível de informação e as orientações médicas permitiam). Comecei a fazer exercícios físicos para melhorar a circulação de endorfinas. Parei de ver/ouvir jornalismo-espetáculo: cuidava do que me entrava pela boca e pelos olhos/ouvidos. Selecionei toda a minha leitura e meu consumo de enlatado para apenas aqueles que me fizessem rir ou que me inspirassem. Me conectei com todo o otimismo que precisamos ter quando estamos fazendo uma vida para entregar a "este mundo tão estranho".

Entre as medidas que tomei foi buscar tem uma nova convivência com minha indignação e passei a escolher as lutas que eu queria entrar. A gravidez de Alice se mostrou o mais poderoso moderador de humor da face da terra: o circo pegava fogo, eu olhava placidamente o acontecimento e pensava que o máximo que poderia fazer era chamar os bombeiros... Nem pensar em gritar, me atirar contras as chamas para salvar o palhaço ou carregar pesados baldes de água eu não podia arriscar a segurança da criatura que eu carregava dentro de mim. Eu não podia arriscar descargas desnecessárias de adrenalina dentro da nave.

Assim que acabou a licença-maternidade e me vi de volta no mundo real, sem nada de sagrado a proteger, voltei a ser a velha mariana rabugenta de sempre, especialmente quando eu estava sozinha. E grande parte dos meus momentos sozinha era no trânsito: ali eu dava vazão a tudo o que ficou contido durante a gravidez e a licença: ouvia radiojornais, ultrapassava, costurava, xingava, buzinava, acelerava no sinal amarelo, cortava, fechava... Tudo com a desculpa de que queria chegar rápido na creche para buscar Alice.

Claro que quando a sagrada Alice entrava no carro, a marianinha virava um ser todo trabalhado na paz e no amor: ficava na minha pista, não buzinava quase, parava no início do amarelo, dava passagem para deus-e-todo-mundo. Afinal, ali dentro daquela nave de ferro estava o meu tesouro. E mais: eu tinha que dar o exemplo: cinto ajustado, nada de telefone, músicas e historinhas adequadas à idade dela. E ia calmamente avançando posições na pista e investindo aquele tempo em conversas e diversões.

Há alguns anos, durante um engarrafamento, eu estava sozinha, em modo direção ofensiva, quando tive uma epifania: eu escolhi morar a 12 km do meu local de trabalho, as vias que separam o meu local de trabalho e da minha casa são as que sempre aparecem nas notícias de trânsito. Ou me mudava, ou largava o trabalho ou me conformava em gastar anos de minha vida naquele trânsito infernal. E do modo que eu levava este momento, isso significaria altas descargas de adrenalina, rugas e risco de morte, durante os próximos 30 anos. Se eu conseguia me comportar de maneira adequada quando Alice estava dentro de mim ou comigo no carro, é óbvio que eu conseguiria ter uma relação mais saudável com o trânsito. A opção escolhida foi mudar a maneira como vivia o engarrafamento.

Desenvolvi estratégias mentais para "aproveitar" melhor o tempo sozinha e sem computador. Hoje escuto melhor as canções, observo as pessoas que andam na rua, percebo a floração das árvores, estou atenta às fases da lua. Também aproveito para me informar - como não vejo tevê, só tenho acesso às notícias locais pelo rádio. Quando dá, quando o trânsito está muito parado mesmo, sem risco de morte, eu me conecto num fone de ouvido ou num viva-voz e ligo para aquelas pessoas queridas para dar um oi - assumindo o risco da multa.

Não foi fácil: aproveitar da melhor maneira um engarrafamento requer muita contenção e criatividade. Muitas vezes o sorriso no rosto escondia uma grave tensão na cervical: a ira contida virava dor... Mas a ira vazada se transformava na mesma. Sustentar esta decisão requer muita respiração também. Requer autoconsciência a presença: viver o caminho sem pensar no destino. Viver o engarrafamento sem pensar na minha casa.

Estas medidas funcionaram super bem e foram fundamentais para a minha saúde mental.

Tudo isso para dizer que se não fosse esta decisão, eu seria forte candidata a ter minha história entre as seis contadas pelo filme Relatos Selvagens. Aquelas histórias são tão reais, quanto são reais nosso estresse diário e nossa indignação diante de injustiças e absurdos.

Hoje não sinto mais vontade de explodir ninguém, nem mesmo de passar pela linha do telefone para engarguelar a atendente que me deixou 60 minutos e mais um pouquinho para conseguir uma solicitação.



Tenho até uma pontinha de orgulho de dizer que quase fui para o modo sarcasmo e ironia, mas que voltei a tempo. Preciso me auto-elogiar e dizer que tratei a trabalhadora como eu gostava se ser tratada quando estava do outro lado, num balcão de atendimento. Não foi fácil, confesso. Eu até tinha motivos para ser uma megera: esta foi a minha quinta ligação, e todas duraram mais de vinte minutos: foram no total 120 minutos, duas horas da minha vida gastas ouvindo ofertas e musiquinhas. Minha bateria quase descarregou no processo.

Enfim, vá ver Relatos Selvagens urgente!









sábado, 13 de dezembro de 2014

boa noite para todas as mães

Toda mãe que trabalha em algum momento já balançou na hora de deixar a criança sob os cuidados de outras pessoas para sair em busca do sustento (ou da realização profissional). Não conheço uma que frequentemente não pense em como ela cuidaria melhor do seu próprio filho que a avó, a babá, a creche ou mesmo o pai. Não conheço apenas uma que nunca tenha pensado em trabalhar menos ou não trabalhar para ficar mais tempo com o bebê.


Este dilema é levado a máxima potência em Mil Vezes Boa Noite: a mãe é fotógrafa de zonas em conflito e coloca a sua própria vida em risco em nome do seu trabalho. O seu trabalho, no caso, é muito mais que um simples ganha-pão, é uma realização pessoal, uma espécie vazão de um desejo ou um instinto inescapável.

O sentimento de estar dividido entre carreira e maternidade, se passa pela cabeça dos homens, não está impressos em colunas de comportamento, em revistas *masculinas* ou em livros de aujo-ajuda ou análise da sociedade contemporânea. Por isso, as reflexões que fiz dentro da sala de cinema ficou muito centrada em tentar imaginar se haveria um filme se ao invés da mãe, fosse o pai quem abraçasse com tanta paixão a carreira, fazendo uma escolha clara entre as necessidades da casa e as necessidades do mundo.



Habeas Corpus preventivo: vou logo falando que não sou crítica de cinema, nem possuo conhecimentos avançados na seara do feminismo, sou apenas uma mulher, uma mãe, uma profissional cheia de dilemas e em processo de evolução. Nesta reflexão revelo que tenho grandes porções de machismos prontos para serem elaborados. Portanto, críticos de cinema e feministas, tenham paciência comigo, ok? Não tenho a menor intenção de contribuir com nada - nem para a crítica de cinema, nem para o feminismo como movimento - com este texto, apenas me senti compelida a repartir algumas reflexões.

A partir deste ponto contem spoiler, vou logo avisando! Ainda está em cartaz - vá ver e volte.

O filme começa com um funeral de uma mulher afegã que está sendo registrado por ela. Em poucos minutos, a fotógrafa é atingida por uma explosão. A cena de quase morte é tão linda que me pareceu estranhamente conhecida apesar de eu nunca ter "quase morrido". Quando ela chega em casa, é recebida pelas duas filhas, uma delas adolescente, o que nos leva a questionar que diabo esta mulher está fazendo sendo explodida por um par de fotos.

E é nesta primeira cena que a reflexão sobre o quão encrustado está o machismo na nossa realidade vem: me pergunto se estes mesmos pensamentos aconteceriam se o cônjuge que volta machucado depois de clicar a fotos das fotos fosse o pai. Quantos pais saem todos os dias colocando sua vida em risco e são recebidos com honras e não com questionamentos?

Em diversos momentos me coloquei ao lado dos próprios filhos daquela mulher apaixonada, indignada e solitária: torci para que ela se recuperasse logo e decidisse ficar em casa, cuidando das crianças. Até elaborei maneiras seguras de ser fotógrafa sem que nunca mais pisasse numa zona de guerra novamente: ora, nenhuma criança deveria perder a mãe numa guerra.

E fiquei pensando em quem faria o trabalho de registrar as atrocidades deste mundo. E pensei em quem participa das guerras, nos soldados, nos civis que são atingidos... Quem olharia para eles? Os homens, ora! Mais que homens?

Quando calço os sapatos daquelas crianças, imagino que a angústia de perder a mãe seria igual à angústia de perder um pai. Seria igualmente angustiante se fosse meu pai a estar em risco: ora nenhuma criança deveria perder o pai numa guerra. Pensei até numa lei que proibisse qualquer ser humano que cuida de outro ser humano a pisar numa guerra. se guerras são realmente inevitáveis, que participem delas quem não seja mãe ou pai, ora!

Claro que temeria pelos pais, mas ver uma mãe em risco me perturbou o triplo, confesso. E foi exatamente o fato de estar perturbada que mais me perturbou. Não é todos os dias que temos tanta clareza sobre os machismos que guardamos num lugar quentinho e protegidos das nossas convicções mais atuais. Encarar de frente o meu machismo e me obrigar a formar uma nova síntese foi um grande desafio.

Ela é pressionada pelo marido. Ela encontra um diário que registra todo o sofrimento da filha adolescente com as suas ausência e com o medo de que ela não volte. Ela não sabe mais como é rotina da caçula. Penso que no lugar dela, não voltaria mais: iria fazer terapia para resolver esta loucura de me arriscar a registrar em imagens as loucuras deste mundo.

Quando inverto as personagens, vejo como é absurda a pressão do marido para que a mulher largue a sua paixão. Se fosse uma mulher a pedir ao marido que não se arriscasse mais, seria chamada de egoísta e neurótica. Quando me coloco na pele da mulher que fica em casa, me imagino com um grande orgulho do meu marido fotógrafo de guerra, mesmo que a mim coubesse a tarefa de informar às crianças que o pai morreu em serviço.

Quando olho para a fotógrafa com o meu olho de mulher que prioriza a família, mesmo trabalhando fora de casa, pergunto-me por que afinal ela decidiu ter filhos. Penso em seguida, que não é do meu direito questionar as decisões das pessoas.

Tem um diálogo entre ela e a filha mais velha que torna uma empatia por esta mulher que faz tudo diferente do que eu faria possível: quando calço os sapatos da mãe, a fotógrafa talentosa movida por um sentimento de indignação e com a capacidade de fazer algo para denunciar o que a indigna, eu entendo o fato dela não deixar de lado esta paixão, mesmo sendo incompatível com a vida doméstica.

É a adolescente quem melhor entende o ímpeto da mãe em se jogar no mundo para fazer o que faz. E depois do filme inteiro de idas e vindas, ela resolve fazer o que faz de melhor, voltar ao local da explosão para terminar de contar a história com as suas imagens. É quando achamos que as decisões foram tomadas e os sentimentos assentados. Mas no final uma cena a paralisa e deixa na sala de cinema que todas as dúvidas voltaram a rondar aquela cabeça indignada: o sentimento que uma criança muda tudo.



domingo, 30 de novembro de 2014

tipo oxumarê

eu e alice fazendo um cadastro numa loja on line, tudo preenchido tudo menos o sexo. clico *avançar* e não vai:
- você tem que escolher um sexo, mamãe!
- mas eu sou mesmo obrigada???
e há vou clicando e rabujentando:
- e se eu não tivesse sexo???????
- tipo oxumarê?
...nada como uma menina não binária...
- é... tipo oxumarê! - desenho um sorriso no olhar

{e penso como algo tão simples pode nos parecer tão complexo quando nossa cultura nos impõe zero,um mal,bem esquerda,direita céu, inferno mascilino,feminino homo,hetero mulher,homem}

não sou religiosa, mas a mitologia yorubá nos oferece uma riqueza de arquétipos muito mais humanos e possíveis do que as mitologias a que temos acesso. O pouco que conheço me encanta demais.


quinta-feira, 27 de novembro de 2014

das coisas que não quero esquecer

Pra dormir são duas histórias, uma do livro e outra da cabeça. e "tem que super herói, viu, mamãe!" 
Deve ser heresia o que faço com os super heróis nos meus enredos: a última luta, eles ganharam com abraços - ele gargalha!
{por um mundo mais afável} 
#arthuraos3 #maisamorporfavor

No meio da tarde:
- mamãe, quero uma coisa doce pá comê...
- tipo o quê, filho?
- tipo uma banana...
#comidadeverdade #docedeverdade

Um dia, mandei brócolis na lancheira de Arthur.
no dia seguinte, a professora me contou este diálogo:
- o que é isso? - pergunta o coleguinha ao ver as arvorezinhas.
- é brócolis! - responde arthur.
- mas brócolis é coisa de comer no almoço.
- nada disso! brócolis é coisa de comer a qualquer hora!
#aos3 #lancheirasemconsumismo #comidadeverdade


Um dia antes do passeio:
- arthur, que lanche você quer levar no passeio?
- não precisa levar lanche, mamãe, tem merenda no ônibus! - esclarece alice
- no passeio de arthur cada um vai levar o seu, filha!
- ah, deve ter sido porque você reclamou da merenda do MEU passeio, né?
#filhadeativista