quarta-feira, 12 de novembro de 2014

a dona da bola | repost

Texto escrito especialmente para a coluna Infância & Consumo que assino no blog Mamatraca.

Quando uma bola não era apenas uma bola, quando era um brinquedo ganhado no natal e furado antes do aniversário, ter uma bola era como ter a chave de um portal, por onde passávamos em busca de brincadeiras, amizades, disputas, abraços e muita diversão. Quando retornávamos estávamos sempre desgrenhados, suados, com joelhos ralados, mas sempre felizes.

Quando pequena achava que ser o sujeito que possui a bola me garantia afeto. Eu era sempre desejada em todas as brincadeiras. A galera me gritava da rua: “desce, mari, vem brincar?” ou interpelava meu pai que voltava do mercado de bicicleta: “mariana pode descer?”. E lá ia eu orgulhosa, com minha bola debaixo do braço em busca de mais uma partida.

Era ter uma bola ou ter um dom. Dó era bom: bons dribles no futebol, chute fortes em direção ao gol e uma bolada precisa no baleado. A galera sempre clamava por Dó que não tinha bola, mas tinha dom. Lembro-me do dia que percebi que realmente eu era muito ruim: nunca estava bem colocada, meus passes sempre iam direto para o pé do adversário e eu nunca acertava o gol. Mesmo assim, escolhia o time e o campo.

A bola, ah, a posse bola me garantia o direito de estar entre os bons.

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Fui crescendo e a chave deixou de ser apenas uma simples bola. A chave para aquele portal rico em interação social e alegrias passou a ser mais caro, muito mais caro. O jeito era ser Dó: sem ter as chaves-objeto, tentar ter as chave-dom. Ter tanta competência em algo provavelmente faria pela mariana-adolescente, o mesmo que a bola fazia pela mariana-criança.

Mas dons como o de Dó não estão numa prateleira disponível para todos: nem treinando 12 horas por dia eu seria como ele. E é assim que fomos sendo, como sociedade, forjados desde a mais tenra idade para buscar algo mágico que nos garanta afeto. Se for algo fácil de conseguir, sem muita dedicação e esforço, melhor ainda. Ledo engano: não está fora de nós aquilo que garante afeto.

Hoje estranhamos a pressão que as crianças fazem para ter “o que todo mundo tem”. Hoje estranhamos o fato de precisarmos de bolas muito mais sofisticadas para nos sentirmos incluídos: é o telefone-faz-tudo-até-fala da moda, a bolsa-sapato-camisa de grife, o carro-que-não-cabe-na-cidade-nem-no-orçamento, é a moradia com-quartos-minúsculos-muita-vigilância-e-varanda-gourmet na área nobre, é a viagem mais-fotografada-mais-testemunhada-do-que-vivida para lugar que sequer gostamos.

A ironia é que atualmente jogo futebol todas as segundas-feiras: continuo sendo péssima de dribles e chutes e continuo não tendo bola nem campo. Finalmente entendi que não preciso nem da bola nem do dom para estar entre os bons. Finalmente entendi que não era apenas a bola a chave daquele portal.


Ruth Rocha escreveu uma história sobre "O Dono da Bola". Li poucos dias depois de ter escrito este texto, no livro "Marcelo, Martelo, Marmelo".

terça-feira, 30 de setembro de 2014

brinquedos demais | repost

A regra é clara: todo brinquedo tem a sua casa e casa não pode ser o chão ou a cama. A casa pode ser uma caixa ou uma prateleira de estante. Na prateleira pode ter uma caixa ou brinquedos arrumados de maneira a dar a mãe conforto estético.

Saiba exatamente o que a mãe chama de conforto estético:



Saiba exatamente o que chama de horror:




Antes da mãe viajar fez uma primeira triagem, mandou aqueles brindes muito xexelentos para o lixo, alguns brinquedos para doação e colocou todos os brinquedos na sua casa, mas ainda sobraram brinquedos sem casa. O que ficou sem casa foi para dentro de uma espécie de cilindro-baú com zero conforto estético esperando a volta da viagem: a intenção era despejar brinquedos que não são mais brincados para dar espaço aos brinquedos muito brincados que estavam sem casa.

Porém, o pai tinha outros planos: sabendo que a mãe tem grande apego aos objetos de bebê dos filhos e que o procedimento de despejar brinquedos sem casa seria custoso emocionalmente para a mãe, tomou uma decisão arriscada: mandou todos os brinquedos sem casa para a casa dos avós dos meninos (a.k.a. a sogra da mãe em tela - ohhhhh!).

A mãe chegou tarde de viagem e mesmo muito cansada percebeu a ausência do cilindro-baú. A mãe ensaiou um desmaio, mas diante da saudade preferiu dar uns beijos ao invés de um esporro no marido e perguntou fingindo desdém: “cadê o sapo?”. Ela nem precisou fingir alívio quando ouviu a resposta: “melhor na casa da sogra do que no lixo!” concluiu e foi dormir.

No dia seguinte, ligou e fez a sogra prometer deixar os brinquedos despejados para ela fazer uma triagem do tipo "lixo ou doação ou volta-pra-casa-de-onde-nunca-devia-ter-saído". Resolveu dar a si mesma a possibilidade de praticar um desapego radical e nem foi olhar as caixas que estão lá. Ela sabe que mais da metade dos brinquedos dos dois filhos estão lá. Mais da metade é muito brinquedo!

Ela sabe que está lá a réplica de Alice nos País das Maravilhas, que ela e a filha adoram, boneca prestes a ser resgatada. Ela sabe que está lá parte dos dinossauros que foram do filho mais velho de uma grande amiga: brinquedos que deverão ser devolvidos para que o caçula. Ela sabe que está lá o exército dinamarquês de barbies que (thank god!) a filha não curte mais e deverá ir para doação. Ela sabe que está lá um conjunto de peças de plástico que perde para o logo favorito do filho e nunca foi tocado, que também será doado. Mas ela não faz a menor ideia do que mais está lá.

E diante desta constatação radical: não saber o que mais está lá, somado ao fato de que em algumas semanas sem aqueles brinquedos os dois filhos nunca procuraram por algo que não estivesse em uma casa, em casa, a mãe concluiu que pela primeira vez o pai está certo: “estes meninos têm brinquedos demais!”

Tinham, né? Não! Continua tendo: metade ainda é brinquedo demais!

Escrevi este texto para o Mamatraca e foi publicado no dia 21/5/14

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

4ª feira de troca de brinquedos e livros

Salvador receberá mais uma edição da Feira de Troca de Brinquedos, que acontecerá dia 4 de outubro, 9h, no Parque da Cidade, nesta nova edição também com troca de livros infantis.

Na capital baiana, a organização do evento é conduzida por um grupo de mães, pais e cidadãos soteropolitanos, que almejam uma infância mais inclusiva e menos consumista e que priorizam a infância, o brincar e a diversidade.

Trocar é mais divertido que comprar: o objetivo principal da feira é propor uma reflexão sobre o consumismo e a publicidade voltada ao público infantil, questionando o verdadeiro sentido do brincar e do brinquedo, e estimulando o desapego aos bens materiais, assim como a consciência ecológica.

Quarta edição da Feira de Troca de Brinquedos: Salvador já recebeu três Feiras, a primeira em outubro de 2012 no Parque da Cidade, e as duas seguintes em maio e outubro de 2013, no Palacete das Artes.

Para o Dia das Crianças de 2014, a Feira retorna ao seu lugar e origem: o Parque da Cidade, na Praça das Floreiras e promete repetir a dose de alegria, sustentabilidade, diversão, reflexão e exercício de desapego. A prioridade é valorizar o brincar e a infância, desconstruindo a ideia de que é necessário consumir brinquedos novos para se divertir.

Quem chega à Praça das Floreiras encontra uma decoração lúdica e um canto de leitura sob as árvores e se diverte com a música do Grupo PUMM - Por Um Mundo Melhor - e as brincadeiras comandadas por Lucas lulúdico.

O evento soteropolitano é organizado por voluntários ligados ao Movimento Infância Livre de Consumismo, com a benfeitoria da Skyruila Recreação Criativa, do Grupo PUMM e do Craft Atelier, contando com o apoio da Prefeitura de Salvador, por meio da Secretaria Cidade Sustentável que cuida do Parque da Cidade.

Serviço:
O quê: Feira de Troca de Brinquedos
Onde: Parque da Cidade
Quando: 4/10/14 | 9:00 às 12:00
Quanto: gratuito
Novidades: facebook.com/FeiraDeTrocaDeBrinquedosSSA
Contatos: Mariana Sá | 81097163 e Lucas Luludico | 87684435Levar brinquedos e livros em bom estado para as crianças trocarem entre si.



Link para fotos na 1ª Feira no Parque: https://www.facebook.com/media/set/?set=a.363702207050820.85809.352567554830952&type=3


Fotos de Iris Scuccato

domingo, 31 de agosto de 2014

toma pelo menos a coca | repost

Era uma fila de restaurante por quilo como outro qualquer. Eu e mais três amigas conversávamos animadamente e na nossa frente uma mulher e uma menininha. Saudosa da minha própria menininha pus-me a observar a interação das duas:

– Um bifinho, por favor!

E a mulher enche uma colherona de mini-empanados de frango (português para nuget) e tasca no prato da menina. “Oxe! A menina chamou ‘isso’ de bifinho, lá de onde eu venho bife é outra coisa, eu hein!”. Pensei em como era “deseducativo” chamar um troço que nem alimento é com o nome de uma comida que – de fato - existe.

Observei os dois pratos: o da mulher tinha folhas verdes variadas e arroz integral com cenouras e ervilhas. Um bife acabara de pousar no prato naquele mesmo momento. A seguir, uma porção de brócolis e couve-flor cozidos no vapor recém chegados ao prato era regados com azeite de oliva (extra virgem, dizia o rótulo!).

– Também quero couve-flor! – ouvi a voz da menina vindo mais da frente e fiquei surpresa com uma porção de batata sorriso sendo esparramadas num prato com arroz branco e empanado de frango.

– Um pouquinho de feijão, pelo menos... – já dava para ouvir uma pontinha de sentimento na voz da menina. Mas pode ter sido minha imaginação, porque a minha vontade era de chorar mesmo.

Depois de uma porção generosa de batata frita servida no lugar do feijão a dupla se dirigiu rapidamente para a balança, me deixando para trás dividida entre a vontade de mandar a mulher "pensar no que ela acabara de fazer" ou preparar um prato de comida de verdade para a menininha.

Mas decidi cuidar da minha própria vida e servir a mim mesma de couve-flor, bife e um pouquinho de feijão em homenagem à menina. Fiquei fazendo a contabilidade dos carboidratos simples e das gorduras da pior qualidade: dois tipos de batata, ambos fritos, e o empanado faziam o arroz mesmo branco morrer de vergonha.

Avistei as duas numa mesa bem no caminho para a minha e pude ver a menina com o garfo a sequestrar uma couve-flor do prato da mulher. Andando lentamente consegui ouvir o que se seguiu da tentativa de rapto.

– Come a sua comida, amor! – pede a mulher com uma doçura suficiente para saber que ali havia amor.

– Mas eu não queria batatinha... – responde cruzando os braços.

– Seu prato tá cheio de comidinha de criança, meu amor, come...

– Ah, vovó, eu não queria essa comidinha, não... – quase chorando e partindo o meu coração.

– Tá bom, toma pelo menos a coca. – resigna-se a avó com a voz entristecida.

***

Pela primeira vez na história da humanidade, as crianças com dentição completa comem algo diferente dos adultos. Agora temos linhas enormes de produtos “marketados” para criança. São produtos elaborados especialmente para encantar: personagens nas embalagens, formatos diferentes, desenhos, brindes e toda uma sofisticada linguagem verbal e não verbal especialmente criada para fisgar crianças e adultos na tese de que produtos “marketados” para criança são mais adequados para crianças do que os produtos regulares, ou que a comida de verdade.

Tenho diversas hipóteses para tentar alcançar o raciocínio de uma adulta que decide não escutar uma criança, ignorar a sua vontade e oferecer um produto de pior qualidade do o desejado: ora, a menina queria bife, feijão e couve-flor e ganhou empanado e dois tipos de batatas fritas.

A avó gosta destas tranqueiras e não pode comer por causa do colesterol e decide que a neta deve comer enquanto pode?

A avó discorda da rotina alimentar saudável “imposta” pela mãe e pelo pai e decide ser importante “dar uma folga” a tanta saúde a mostrar o "labo bom" da comida?

A avó foi levada a acreditar que existe um tipo de comida especial e boa para criança?

Eu escolhi olhar o contexto e olhar para esta adulta com mais condescendência. Prefiro acreditar que ela está imersa num sistema que nos cega, que anula a boa informação que temos (e ela tem, vide a escolha das comidas no seu próprio prato) e o bom-senso, nos fazendo chafurdar na falta de reflexão e na repetição de pensamento que temos apenas por hábito.

Acredito comprou a tese defendida pelo marketing dos produtos feitos para crianças de que a comida que ela colocou no prato da neta deveria ser diferente da comida para o adulto que ela colocou no próprio prato. Ela foi levada a acreditar que faria a sua neta feliz em poder comer coisas feitas especialmente para criança. Ela foi levada a acreditar que não havia mal maior em servir a uma criança aquele produtos. Ela fez uma conta e decidiu comprar a ilusão de estar fazendo a sua neta feliz.

***

– Mas eu não tomo coca, vovó!

***

A cena descrita acima é real. Aconteceu em meados de 2013, no restaurante que fica embaixo da marquise do Parque do Ibirapuera: eu tenho testemunhas. As companheiras do Milc que almoçaram comigo no intervalo de uma reunião sobre infância e consumo da Rebrinc. Eu escrevi este texto para o Mamatraca e foi postado em 12/5/14

terça-feira, 20 de maio de 2014

álbum da copa: colecionar ou não colecionar, eis a questão

Eis que as crianças ganharam álbuns da copa. Muitos exemplares foram distribuídos "gratuitamente" na escola *pública* onde a avó dá aula e poucos alunos quiseram. Nós também não queríamos, mas as crianças viram por acidente e se interessaram: e tivemos uma excelente oportunidade.

Por que eu não queria?

Muito simples: porque é economicamente inviável - mais de 600 figurinhas! - e é um afronte a minha ideologia - tem figurinhas patrocinadas e muito publicidade dentro daquele negócio. Sem falar que estão sendo panfletadas diretamente às crianças ao arrepio da lei e do bom-senso.

Por que foi bom eles terem ganhado por acidente?

Porque tivemos uma oportunidade ímpar de conversar e de reconhecer um potencial nos filhos que temos. Pais e avós se juntaram para trocar ideias sobre a situação.

Quer saber como foi o papo?

Para dar um tom amistoso, explicamos que eles podiam comprar figurinhas com o dinheiro deles e explicamos porque nosso dinheiro merecia outro destino.

Começamos a pensar no sentido do álbum: repensar a nossa relação com o futebol, com a copa, com o ato de colecionar figurinhas e, especialmente, no sentido de se engajar naquela coleção em particular. Falamos também no montante de dinheiro que teriam que gastar e nas coisas que podíamos comprar ou fazer se não gastássemos aquele valor.

Eles começaram a achar mal negócio aplicar as economias deles naquilo também. Disseram que na banca de revista tem outras coisas muito mais interessantes.

Concluíram eles mesmos que não tinha sentido gastarem dinheiro em figurinhas de uma coisa que eles nem curtem tanto (futebol!) - propomos colecionar outro álbum de algo que eles curtam mais, assim que eles queiram, se é que vão querer (será que estragamos as figurinhas todas e para sempre?).

Mas o que fazer com os álbuns ganhados?

Uma vez decido que não iríamos comprar figurinhas para aqueles álbuns, começamos a pensar no que fazer: tacar fogo era a minha opção, mas a proposta que saiu da cabeça das mais velha foi genial: vamos fazer figurinhas em casa para completar o álbum. Juro! E se fizerem mesmo as figurinhas (o álbum está esquecido debaixo de um banco do carro), eu posto as fotos aqui.

Quer ler mais sobre álbuns de figurinhas? 

Clica aqui ó: http://bit.ly/MilcBlog14520